segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Heaven Can Wait

Há alguns anos, por apreço a Jane Eyre de Charlotte Brönte, comprei o filme baseado nessa mesma obra.

Parece-me muito natural a sensação de desilusão que surge logo após a visualização de um filme que tenha sido baseado num romance. Há sempre qualquer coisa que falta ou falha, não era bem assim que se imaginava as coisas, o realizador poderia ter feito melhor e os actores podiam ter sido outros. Enfim, diria que estes comentários são habituais, ainda que quem os diz, por vezes, acredita ser original nesse modo de pensar.

Pessoalmente, este filme não foge a comentários semelhantes – aliás, eu acrescentaria de bom grado uns poucos adjectivos depreciativos a esta medíocre adaptação...

Ainda assim, já diz o velho ditado, há males que vêm por bem – e assim foi. Quando se quer comentar algo, convém conhecer um pouco mais, ainda que não se goste – assim, como consequência da curiosidade para saber mais acerca deste filme, fui ao encontro de Charlotte Gainsbourg. Confesso e cito o comentário mental deste meu primeiro encontro: “Oh, não... mais uma actriz que quer ser cantora, ou cantora que quer ser actriz...”

As primeiras impressões são tramadas e, às vezes, convém lutar um pouco a favor das segundas. Foi assim que dei por mim a ouvir esta “cantora-actriz/actriz-cantora” e, ainda que o seu tom se aparente monótono para alguns, há qualquer coisa naquele som que me agrada.

Em IRM, surge uma colaboração com Beck – e foi assim que tive de encontrar um espacinho no soalho para guardar mais um som.
Heaven Can Wait, ainda que nos mantenha no purgatório, deixa um sentimento positivo, que nos faz sorrir, mesmo que levemente.

"Heaven can wait and hell's too far to go

Somewhere between what you need and what you know"

domingo, 5 de dezembro de 2010

The Joker

Cuca - foi o nome dado à gatinha que se adoptou lá em casa. Há cerca de um mês... comecei a desconfiar que a Cuca era, na verdade, um Cuca... Há dois dias, avistei uma pilinha! 
E assim, venho parar a esta canção, ou antes, ao vídeo desta canção!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Santa Chuva


Cada vez que chove, as palavras Santa Chuva passam-me pela cabeça.  Este som não canta a chuva que se ouve na rua, o ruído é outro e é assim que hoje fico-me por ouvir Maria Rita uma voz que parece não saber mentir, tal é a presente sinceridade de um amor à música.

Sempre gostei de Santa Chuva pelo poder de [segue o clichè:] me tirar o fôlego e, ainda assim, com a lágrima no rosto, surge a sensação de que há força aqui dentro

Há qualquer coisa única na fragilidade de uma mulher e sua capacidade de lutar contra a injusta tristeza.

Correndo o risco de haver quem muito discorde, Santa Chuva, na voz de Maria Rita [porque, faço questão de esquecer os Los Hermanos e sua ligação a este som...] é, para mim, uma daquelas canções que só uma mulher compreende, só um ouvido feminino realmente sabe a luta que exala daqueles sons.
Quando ferida pelas acções [ou ausência de acções] da pessoa que ama, uma mulher cai indefesa, o soalho enche de lágrimas e arrefece o corpo até ao coração. E é assim que uma mulher se revela mais frágil que um fio de cabelo – pois não há causa mais forte do sofrimento de uma mulher que a falsidade e desamor de um homem.

Por outro lado, já diz a célebre frase [ainda que não muito bem adequada ao presente som]: “Hell hath no fury like a woman scorned”.

Isto para relembrar que, se a fragilidade é feminina, também o são a intuição e a força. Em Santa Chuva, não é a mulher indefesa que surge – não ouvimos aquela que necessita de um knight in shinning armour.
Aqui, ouve-se a certeza de um nunca mais, de uma lição aprendida. A mulher ergue-se do soalho salgado e impõe a certeza de que o seu coração não voltará a cair. Porque a ingenuidade e o desarme não são inerentes ao coração feminino – e o homem que o fere não tem como desculpar-se.



quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

[yesterday was a] Bad Day

   Este soalho terminou o dia de ontem com umas quantas tábuas partidas e, em busca de sons que reparem o estrago, tem criado nas últimas horas uma cacofonia explosiva, que vai desde Portishead a Rammstein.
Esta procura levou-me, ainda ontem, a uma banda que me oferece um pouco de tudo [ainda que as suas criações dos anos 80/90 me pareçam bem mais maciças e resistentes].

Não comentar REM, deixaria este soalho com um buraco quase impossível de tapar – afinal de contas, tem a mesma idade que eu e assim é daquelas bandas que, quer queira quer não queira, foi revelando ao longo dos anos a sua companhia com uma ou outra canção:


[a]   Radio Free Europe ouvia-se, tinha eu um ano de idade... Sendo assim, que posso eu dizer? Até poderia referir-se à Organização Norte-Americana Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL), mas que sei eu? Pois bem, a qualidade intemporal da Música permite-me que diga que o que realmente importa é que esta é daqueles sons que se ouvem bem num local semi-iluminado, com um grupo de amigos que dança sem se dar conta dos movimentos.

[b]   A vontade de dançar e ir a um concerto de REM torna-se evidente com Little America. É um som que me prendeu desde as primeiras palavras, porque “I can’t see myself at thirty” fazia todo o sentido!

[c]   Hoje, penso em Driver 8, simplesmente pelos acontecimentos de ontem – era eu a driver e o meu carro ficou “feito num 8”! É uma canção que opto por não ouvir agora, pois lembra o quão árduo é atingir um objectivo e a dificuldade pede uma pausa, ainda que se se esteja longe do nosso destino.

[d]   No espírito de mudança para um som bem mais positivo, opto por I Believe – pois há que acreditar na mudança para algo melhor ou, pelo menos, mais realista. “I believe my shirt is wearing thin /And change is what I believe in” – carrega em si a verdade de toda a canção e, pessoalmente, não poderia fazer mais sentido: pois há que acreditar na mudança, quando algo começa a deteriorar o nosso “eu”.

[e]   Há tantas covers de The One I Love e ainda assim não há nada como ouvir o original... Pouco se dirá sobre esta canção – estará sempre ligada a alguém, num dado momento da vida – pois quem a ouve, deixa o egoísmo para trás e enche o coração e a mente com a existência de uma outra pessoa.


[f]   Li algures que Turn You Inside Out é uma das canções favoritas de Michael Stipe. Não sei se será verdade, mas é bem possível. Afinal de contas, quem não gosta de uma canção que fale de amor, sem recorrer ao clichè – porque “amar” nem sempre é um mar de rosas.

[g]   Perante os elogios a sons de REM que que se vão sentindo nesta mensagem, diriam que sou uma fã incondicional. A verdade é que há canções de REM que me fazem fugir a sete pés. Não será surpresa quando digo que Shiny Happy People é, para mim, a pior canção que os REM alguma vez criaram. Tenho por hábito acreditar que, sons como aquele acontecem por um de duas razões:
[] demasiada droga ou
[] droga a menos.
Indecisa no que diz respeito a REM, opto por Losing My Religion. Tenho vindo a saber o que este som respira – porque há que comunicar, ser sensato e sincero para, no fundo, acreditar numa relação.

[h]   Acredito piamente que Everybody Hurts é uma canção que acompanhou a adolescência de toda uma geração nos anos 90. Confesso não ser excepção – as dúvidas e paixões de uma jovem foram confortadas por este som melancólico e, ao mesmo tempo, doce e esperançoso. Esta canção será sempre um ombro amigo para muitos, e que ombro!

[i]   Não sei bem porquê, com I don’t sleep, I dream, surgiu a ideia de que REM faz coisas sexys – e assim penso em uma das qualidades de REM: a possibilidade que nos oferece de ouvir uma canção e pensar o que quisermos dela – porque a imaginação é livre de formalidades realistas.

[j]   Há uma canção que em tempos me prendeu pela calma que oferecia, apesar de toda a confusão que nos rodeia – por entre a perda e o ruído, há um coração que bate e que deve ser escutado. E-Bow The Letter é uma brilhante colaboração com Patti Smith – e assim se engrandece toda força para carregar o peso de uma fantástica canção.

[k]   Ignorando toda a complexidade que esta canção apresenta – porque há questões cuja simplicidade é apenas superficial e lá em baixo há muito mais para descobrir – há á dias em que me sinto assim: tal qual um Daysleeper.

[l]   Se, por outro lado, REM não criticasse, se não apresentasse o negativo de uma forma tão alegre, talvez, não ouvisse com tanta frequência. E assim recordo Imitation of Life, onde se sente a poesia até ao último detalhe – porque a arte imita a vida – e imitação não é sinónimo de tradução.

[m]   Com o passar dos anos, os sons de REM foram-se afastando destes ouvidos... Around The Sun surgia quando o optimismo era necessário, mas por vezes, um pouco tarde de mais... A idade tem destas coisas e REM também não ficam mais novos!..

Talvez Collapse into Now trará uma companhia que mate saudades de sons destes senhores! Entretanto, fica aquela que me relembra ontem...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Crash[ed my car] Kings

Hoje, após um acidente de carro pela manhã e a certeza de que não há como culpabilizar outra pessoa que não eu, fica uma canção de Crash Kings, porque:

[1] com o acontecimento de hoje, considero-me justa pretendente ao posto de “Car Crash Queen”;

[2] só posso esperar que seja já Quarta, pois o dia de hoje é para esquecer;

[3] estou a precisar de sons que me impedissem de pensar nos estragos do meu carrito e, entre tantos que me passaram pela cabeça [desde Airbag de Radiohead a Crash Into Me de Dave Matthews Band], este é o que estranhamente mais se afasta do acidente... 


Amanhã será melhor (já dizem os Incubus [ironicamente, em Drive]: "whatever tomorrow brings, I’ll be there...").



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Come Together

“Não se ama alguém que não ouve a mesma canção” – canta Rui Veloso, enquanto acabo o café e acendo o cigarro – e assim, elimino o texto que estava a escrever e opto por seguir este som, que me levará algures neste dia frio. 

A Paixão tornou-se usual (ou até banal) nos bares e cantares deste país e, ainda assim, há quem dê a mão à palmatória na força deste simples verso.
Pessoalmente, tenho a mão estendida desde sempre – pois o "não ouvir a mesma canção" já proporcionou o desinteresse [preconceituoso e involuntário] por uma ou outra pessoa –, mas mantenho a certeza de que o verso da medalha é igualmente bem possível.

Ainda que A Paixão nos fale de um desamor, o dia de hoje relembra como a canção – [quase] toda e [quase] qualquer uma – é uma força que elimina o espaço entre as pessoas, criando novas amizades e proporcionando um novo amor. Quem não foi ainda feliz vítima desta força, vive [digo eu] com menos sorrisos.

De um modo geral, diria que há sons que permanecem no coração – como que uma pilha extra e recarregável – para que ele não deixe de sentir. Por vezes, temos a sorte de encontrar quem use uma mesma pilha, possibilitando assim a aproximação dos corações – e ouve-se um tic-tac em uníssono que sabe sempre bem!

Nestes dias frios, que nem sequer deixam ver o sol, tenho pairado numa outra canção que recarrega as pilhas e apela ao aquecimento do coração – porque às vezes, para que haja a aproximação e o aconchego, temos que apelar!

Assim, esta canção vai e vem nesta semana de Novembro, sem que o seu significado vá para além do título. Ela é ouvida [e, em momentos distraídos, cantarolada] pela vontade de estar junto de quem se gosta, pela sensação de que essa união é possível – basta querer e ... basta ouvir a mesma canção!


Ainda que bastante reticente quanto a algumas criações dos Beatles [Yellow Submarine, independentemente do seu valor social, será sempre uma tortura...], há sons sensacionais nos seus álbuns e Come Together é, para mim, um excelente exemplo. Mais do que isso, tem sido uma excelente companhia!

Perante tantas opiniões quanto ao significado de Come Together [e, já agora, de qualquer outra canção dos The Beatles], agrada-me a ideia de que cada estrofe descreve cada um dos membros da banda, pois nem sempre temos que ver as coisas pelo lado político... Os sons unem-se e as palavras apresentam quem os cria – se tiver que pensar acerca do carácter social e político, não será hoje, certamente!

Hoje, fico-me pelo apreço da sua sonoridade suavemente energética e ideia de união que a música cria.  



sábado, 27 de novembro de 2010

Feel So Low

Há dias em que o soalho vai a baixo – surge um peso que pisa as tábuas sem se descalçar e magoa a madeira. Nesses dias, o soalho lamenta-se com a ajuda de Porcupine Tree e os sons em Feel So Low.

Foi esta canção que me deu a conhecer Porcupine Tree, há três anos apenas... [ainda bem que nunca é tarde para ouvir canções pela primeira vez!]
Curiosamente, quando ouvi Feel So Low pela primeira vez, não andava nada em baixo – era Verão, o sol alimentava a boa disposição e o dia-a-dia sorria para momentos bem vividos. Ainda assim, em contraste com a minha disposição, não consegui deixar de ouvir repetidamente esta canção e procurar os restantes sons desta banda britânica.

Tenho por hábito não catalogar bandas por estilo [muito graças aos limitados conhecimentos que tenho desses catálogos], mas chamam-lhe rock progressivo, algo psicadélico ou electrónico e com uns traços de heavy metal. Ora, catalogar Porcupine Tree parece-me ser uma tarefa difícil e o meu catálogo é sentimental, consequentemente, só posso dizer que o estilo desta banda é bom! Bom de se ouvir, bom de se sentir, bom de se partilhar.


Se o tom melancólico é frequente nas [poucas] canções que conheço, a característica singular presente em cada canção leva-me a ouvir Porcupine Tree uma e outra vez – quer me sinta bem, quer não sorria há bastante tempo.

Feel So Low, ainda que não a canção mais melancólica desta banda, será aquela que liberta a tristeza sem recurso a metáforas, alegorias ou qualquer outra figura de estilo.
Aqui, a melancolia é pura, simples e sem rodeios – as palavras acompanham a simplicidade da situação retratada e, com todo o apoio da música, o seu valor é expresso de uma forma que poderá fazer pensar, num ou noutro momento, "aquela canção sou eu".